Quem disse?

Não sei se posso dizer que eu escolhi viver tudo que eu vivi até agora. Na verdade eu sinto que falaram: “É assim, ó! Vive aí!” e eu segui. Tudo que diziam que era certo eu fazia, tudo que diziam que era errado eu evitava. Até agora.
Não é que agora eu sou uma revolucionária revoltada. Não. Mas olhando pro mundo com cuidado o que eu mais vejo é: guerra, egoísmo, solidão, tristeza. Será mesmo que os conselhos e orientações que meu tataravô passou pra minha bisa, que passou para o meu avô que passou para a minha mãe são os mais adequados para mim? Será que eles foram felizes? Ninguém nunca me falou nada a respeito, e pelo que eu vi até agora… Não sei não…
A nossa sociedade, na sua evolução, foi traçando rotas que a priori devem ser seguidas. O que eu sinto é uma pressão do tipo: “Ai de você se não seguir!”. Se você não for pra escola, se não entrar em uma boa universidade, se não tiver o mínimo de dinheiro, freqüentar certos lugares, constituir uma família feliz, no mínimo você é meio louco, pirado, alternativo. Enfim, está fora do padrão. O problema é o que eu também vejo alguns outros padrões hoje em dia: câncer, stress, infarto, depressão, pânico, gastrite. Pensar por aí me faz começar a tentar olhar o que todo mundo acha certo de uma outra maneira… Da minha maneira.
Quem disse tudo isso que a maioria das pessoas acredita piamente ser verdade? Quem? A sociedade da depressão? Essa que perdeu o senso de coletividade, que destrói a natureza e que está se afundando em guerras? Ah…
O certo aqui é ser monogâmico. Alguém já parou pra pensar que isso só passou a existir quando surgiu o conceito de propriedade privada? Os homens tinham que ter certeza de que aqueles que herdariam as suas terras eram seus legítimos filhos. Conseqüentemente, como garantia, a esposa deveria ser só sua.
Há uns dois anos atrás, quando eu ainda namorava, uma situação que eu vivi me fez decidir que quando eu casasse teria um quarto só pra mim. Levei essa idéia para um almoço de família. Das oito pessoas presentes, apenas a minha madrasta quis ouvir o porquê antes de se revoltar.
Eu expliquei que muitos casamentos não davam certo por inúmeros motivos. Um motivo que eu conseguia identificar como destruidor de uma relação na qual eu me encontrava, era a falta de privacidade. Como, para mim, casamento é uma proposta de uma vida inteira, pretendia encontrar modos de aperfeiçoá-lo ao máximo para que realmente durasse uma vida inteira.
Então, como acontece hoje em dia, e vai continuar acontecendo desde o dia que eu casar até o fim da minha vida, provavelmente terei alguns dias em que eu estarei de saco cheio e vou querer chegar em casa e ficar sozinha no meu quarto, sem encher ninguém com o meu mau-humor. Assim evito brigar com quem quer que seja, evito querer sair do quarto pra ficar sozinha e causar, sem querer, uma crise no meu marido, que vai querer saber se o problema é com ele, e não vai acreditar se eu disser não. Além disso, as noites que eu passar no quarto do meu marido ou vice-versa, serão provavelmente muito mais especiais do que se dormíssemos todos os dias juntos.
Eu acho a minha idéia fantástica! Para mim. Bom, as pessoas lá de casa não acharam. Aliás, pelo contrário! Todo mundo se revoltou: meu namorado falou que então nunca iria casar comigo, meu cunhado falou que a proposta do casamento é aprender a conviver com o outro em todas essas situações. Mas aí que eu me pergunto: proposta de quem?
Por que tem que ter regra pra todas as coisas da vida? Regra é essencial pra vivermos em comunidade. Mas tem limite. Senão vira todo mundo gado. Gado que é assim: toma um rumo porque todo mundo tomou, segue o resto pro bebedouro às cinco da tarde mesmo sem estar com sede. Só que boi não sente, não pensa, não tem crise existencial!
Quem disse que casamento é assim e pronto? Por que tem que ser assim? A vida é minha. Cada um deveria descobrir o seu jeito de viver. E é só assim que vai funcionar! Senão, haja Gardenal! (sem querer ser repetitiva).
Os dogmas sociais são complicados. É difícil tentar olhar de fora e distinguir em quais você se encaixa por que faz sentido pra você, e em quais “te encaixaram”. Detectar isso é um jeito de cada um de nós conseguirmos pôr em prática aquele lema tão conhecido, tão pronunciado que chega até a estar meio banalizado atualmente: o “Carpe Diem”.
Outro dia fomos a uma pizzaria. Quando abrimos o cardápio percebemos que a pizza era extremamente cara. Então eu disse: “Vamos perguntar ao garçom aonde tem uma pizzaria mais barata?”. A mesa inteira me reprimiu: “Você viaja, né Má?”. Levantaram da mesa e foram indo embora. Fiquei por último parada, perplexa. O garçom, moreno, com uma cara de simpático ficou me olhando. Senti que tudo bem perguntar: “Moço, você sabe aonde tem uma pizzaria mais barata?”. Ele me explicou. Pronto. Se ele tivesse na minha situação, ele ia gostar que alguém o ajudasse. Ele é humano. Acho que seria mais gostoso de viver num mundo com menos regras de conduta e mais sensilibilidade. Acho importante lembrar que os padrões que a mamãe te ensinou para se comportar enquanto você é pequeno, podem e devem ser revistos quando você cresce e toma consciência deles.
Outro exemplo: sempre fui cética. Sempre tive orgulho de ser cética, racional. Foi o que me ensinaram a vida inteira. Durante um bom tempo cheguei a pensar que nada mais éramos do que uma colônia de vários bichinhos autônomos chamados células. E quando dava alguma encrenca na colônia, ou a gente ficava doente, ou morria. Dependia da encrenca. É claro que eu pensava assim. Vivo numa sociedade que enfia na cabeça de (quase) todo mundo a lei que diz que só merece crédito aquilo que pode ser comprovado pela racionalidade, pela ciência.
Ah é? Agora alguém aqui pode me dizer se alguém já materializou o amor em laboratório? Se já inventaram uma máquina de quantificar o amor? Não? Ah… Mas quem tem coragem de dizer que o amor não existe?
Será que Aristóteles era feliz? E se ele não tivesse convencido o mundo ocidental inteiro de que a razão é melhor do que a emoção? Depois ainda veio o Iluminismo para legitimar ainda mais essa idéia. O ser humano raciocina (ou a maioria deles), claro. Do mesmo jeito que tem sensações, sentimentos e intuições. Enterrar tudo isso e deixar só a razão falar é bom? Quem disse que o raciocínio deve se priorizado se comparado à intuição, por exemplo? Aristóteles? E se eu disser que não é? Quem é mais feliz? Uma pessoa que se poda, pensa dez vezes antes de fazer, ou uma pessoa impulsiva, que sente que deve e faz? Não sei. Não sei disso tanto quanto eu sei que supervalorizar uma característica humana não anda fazendo bem.
Ando meio assustada com a mudança de valores que tem ocorrido ultimamente. Não sei se é um fenômeno do mundo, mas tenho certeza que brasileiro é. Não precisa ir tão longe, ou melhor, até Brasília pra começar a discutir as coisas erradas do Brasil. Outro dia fiquei sabendo que uma menina, amiga do meu primo, de catorze anos, “deu” (me desculpem o termo, mas não consegui pensar em nenhum melhor) no meio de uma balada de Campos do Jordão. Catorze anos. Tenho conversado com bastante gente e ouvido muito que as crianças andam impossíveis nas escolas, cada vez mais baderna, menos respeito… Só falta porem fogo na escola.
Ao invés de ficar criticando, resolvi analisar os fatos: nos últimos 30 anos tivemos a maior revolução sócio – tecno – científica da história da humanidade. Mesmo assim o ensino continua acontecendo da mesma forma que há um século atrás. Talvez pensando por esse lado não estranhássemos o fato de muitos pais e professores estarem perdendo o controle sobre as crianças. Quantos e quantos livros dando dicas de como educar estão sendo escritos. Nunca houve tanta necessidade de auxílio de especialistas na educação de jovens. Como educar?
O meu ponto é: como saber que padrões tradicionais são importantes serem mantidos e quais precisam urgentemente ser revistos?
O que é certo? O que faz bem? Quem disse?
Sei lá…

Marta Murat

Vaidade

Cirurgia de lipoaspiração?
Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, Deus é a auto imagem.
Religião é dieta.
Fé, só na estética.
Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem.
Gordura é pecado mortal.
Ruga é contravenção.
Roubar pode. Envelhecer, não.
Estria é caso de polícia.
Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?
A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não
Pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.
Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.
Não importa o outro, o coletivo. Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal, mas…
Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é não pode ser.

Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.

(Herbert Vianna)

O não-estar na descivilização brasileira

A crise é boa para a sociedade civil, já que ninguém sabe onde está a sociedade civil. Onde está a sociedade civil? Vendo a Globo? No shopping center? Na Europa? A crise é boa para achar a sociedade civil. (JABOR)

A crise é sempre culpa do outro. (JABOR)

Referido sempre a seu próprio umbigo e sem poder enxergar um palmo além de seu próprio nariz, o sujeito da cultura do espetáculo encara o outro apenas como objeto de seu usufruto. Seria apenas no horizonte macabro de um corpo a ser infinitamente manipulado para o gozo que o outro se apresenta para o sujeito no horizonte da atualidade. (BIRMAN, 2000. p25)

A crise é de identidade. Os políticos que nunca governaram estão em crise de identidade, como as debutantes. (JABOR)

Não obstante, o mal-estar da brasilidade hoje não se materializa mais em torno da culpa, como afeto primordial, mas se configura decididamente no registro da vergonha. Infelizmente, aliás. Com efeito, a presença da culpa nos remete ainda como sujeito à crença na existência da figura do pai e ao reconhecimento da transcendência de uma lei simbólica, que possa com justiça possibilitar a distribuição do gozo. Porém, quando não se pode mais acreditar nisso, o que importa para a subjetividade é salvar a própria pele, isto é, garantir algum gozo próprio para si e ligar o “dane-se” geral para o gozo dos outros. (BIRMAN, 2003. P76).

O não-estar na Descivilização Brasileira

Civilizar, de acordo com a antropologia psicanalítica de Freud, é reprimir ou suprimir alguns de seus desejos, para que possa haver convivência. Esse processo implica necessariamente em uma renúncia pulsional, tanto erótica quanto agressiva. Fica claro no livro “mal-estar na civilização” que, por esse motivo, é inevitável para cada indivíduo não guardar certo rancor contra a cultura.
Porém, após a morte de Freud a sociedade se configurou de uma maneira que faz com que a intensidade da repressão exista não apenas pelas exigências que o processo civilizatório faz, mas também pela injustiça social, em virtude da exploração do homem pelo homem, pela força que é preciso para garantir a manutenção da sociedade capitalista.
Ao falarmos do Édipo, que é a pedra angular da estrutura psíquica e do processo civilizatório, falamos da criança que tem que renunciar às pulsões incestuosas e parricidas. Falamos da criança que tem que renunciar, portanto, à onipotência do seu desejo e ao princípio do prazer, adequando-se aos princípios de realidade em nome de tudo que receberá em troca que lhe permita desenvolver-se e sobreviver (nome, filiação, lugar na estrutura do parentesco, acesso à ordem do simbólico…). Como diz Hélio Pelegrino em seu texto “Pacto Edípico e Pacto Social” é um “toma lá dá cá”.
No Pacto Social, através do trabalho, pede-se ao ser humano que confirme a sua renúncia pessoal primitiva. Trabalhar é disciplinar-se, é abrir mão da onipotência e arrogância primitiva. O trabalho é o elemento mediador fundamental, por cujo intermédio, como adultos, nos inserimos no intercâmbio social e nos tornamos, de fato e de direito, sócios plenos da sociedade humana. A recompensa que o sujeito terá por esse doloroso acordo compete à sociedade.
Se o pacto social não for posto em prática, se os direitos de quem trabalha são desrespeitados, já não há mais motivos para que a sociedade seja respeitada e preservada pelo indivíduo.
A ruptura com o pacto social pode implicar com a ruptura com o pacto Edípico. Tudo aquilo que ficou reprimido em nome do pacto com o “pai” pode vir a tona sob forma de conduta delinqüente anti-social. E é isso que vêm dilacerando o tecido-social brasileiro: assaltos, roubos, assassinatos, estupros.
O texto de Hélio Pelegrino me levou a pensar que estamos vivendo um processo de “Descivilização” no Brasil, onde não há mais nenhum bom motivo que nos leva a querer cumprir as regras sociais. O mal-estar ainda existe, mas agora a causa é uma não-responsabilidade para com o outro. Penso que mais do que falar em um mal-estar, poderíamos falar sobre um não-estar.
Num quadro de conformismo em que eu não sou culpado por nada, que nada do que eu fizer vai adiantar. Num quadro de “salve-se quem puder”, “cada um por si e Deus por todos”, há simplesmente um não-estar. Não há sociedade. Não há “toma lá, dá cá”. O mal-estar vem agora pelo desamparo.
Sem entrar no mérito do por que, ou de quando se deu o start desse caos brasileiro, o que se vê é justamente os líderes econômicos e políticos da nação que, de tanto olhar para seu próprio umbigo, de tanto se preocupar narcisicamente apenas com o seu próprio gozo, de tanto se dar ao direito de não renunciar à onipotência do seu desejo; roubando, mentindo, não se responsabilizando pelo Outro, fez com que a massa seguisse seu exemplo. Há uma renúncia do pacto social. Afinal, não existe acordo de mão única. Não há vantagens em dar, se não recebo nada em troca.
Críticos criticam a crise. Inundam o leitor de questões. Onde a sociedade civil está? Eu digo onde: está criticando, está lendo, está escrevendo, está se escravizando, está tentando arranjar um por que de viver nesse caos, mas nem ela sabe quem é ela, nem ela sabe que ela é ela. E se souber, não tem a mínima idéia do que fazer com isso.
As perguntas aumentam, e de modo inversamente proporcional as soluções aparecem. A situação é grave.

“A crise estimula a inteligência.” (JABOR).

Marta Murat

“A beleza é o poder gerado pela imagem.” Nietzche

Assim falava Zaratustra
“…Quando o poder se torna clemente e, desce ao visível, a essa clemência chamo eu, beleza…”

Dizem que é natural do ser humano aspirar pelo poder… Por que é tão essencial ser bonito? Vale a pena pensar sobre isso. A obsessão das pessoas em querer parecer bonitas chega a ser assustadora. Principalmente para quem vive no Brasil.
Pensando rapidamente me ocorrem duas formas básicas de deter o poder: uma é o conhecimento, a outra é a força. Ainda devem existir outras formas parciais de detê-lo de alguma forma…
Eu quero emagrecer de qualquer jeito. Não sou gorda, mas quero ficar mais magra. Um amigo perguntou o porquê. Respondi que ficaria melhor comigo mesma.
- Mas você não consegue ficar bem com você mesma com uns quilos a mais?
- Até consigo mas… (Silêncio)
- Você é muito mais do que isso.

É realmente… Recorrer à beleza me parece uma forma fácil e rápida, (pra não perder o nosso costume) de deter algum poder…

ps: Mais uma vez: é só uma proposta de reflexão… Não estou condenando nada.

A fórmula do meu Prozac

Andei passando por uma época difícil. As coisas melhoraram sem eu saber o porquê do sofrimento, e muito menos sem saber o porquê da melhora. Foi um santo de um professor meu que começou pôr tudo em palavras. Vantagens de estudar psicologia. Então resolvi escrever, pra ver se alguém se identifica comigo…

Foi assim: pronto. De uma hora pra outra estava tudo explicado. Confesso que até fiquei meio frustrada de descobrir que a minha crise existencial não era só minha. Que ingenuidade…
Me inscrevi incontáveis vezes em academias. Nunca durou mais do que dois meses. Não sou sedentária, muito menos anti-social. Porque (catso!) todas as vezes que eu começava a fazer academia algo dali me fazia não suportar mais aquele lugar? Sim, a minha crise teve a ver com eu escutar todos os dias os meninos da academia dizerem que acham 38 de bíceps pouco.
Acontece que o fato das pessoas quererem parecer Deusas e Deuses gregos, tem tudo a ver com eu me sentir sozinha e perdida. Tem tudo a ver com o pessoal que vai à micaretas pra fazer competição de quem “pega” mais. Tem a ver também com as meninas morrerem de anorexia. Tem a ver com esse conceito contemporâneo de saúde que é o de não ter problemas: todo mundo tem que ser legalzinho sempre, agradar sempre. Tristeza é depressão, é desvio, é doença. Na verdade esse texto se trata sobre a perda da nossa “alma” nessa nossa Sociedade Narcísica do Espetáculo, como diriam os sociólogos.
Parece-me que as pessoas esqueceram do que temos de mais essencial, e do que nos caracteriza como humanos. E é isso que eu chamo de “alma”. A nossa alma é social, precisa do outro. Aliás, só sabe se alimentar de relações humanas, profundas e desafiadoras. Essas são as “refeições”. Continuando essa metáfora, é como se o “fazer social”, fosse só aperitivo. Não nutrisse.
Porém, não nos damos mais conta disso e o individualismo começa a tomar conta das nossas vidas. E essa perda do coletivo começa a irradiar para outros setores da vida de cada um de nós. Como eu sou mais importante que o resto, venho antes de todos, começo a usar o outro, não como outro que se relaciona, que ora te completa, que é separado de você, mas como objeto para a própria satisfação. Vou tentar explicar. É o seguinte: o fato de a molecada beijar vinte em uma micareta, não me parece que seja com o intuito de “explorar a sexualidade”, já que o casal, às vezes trio, se ficar junto por mais de cinco minutos será muito. Parece-me menos ainda que beijar tanta gente assim seja conseqüência de uma abundância de afeto. Mais parece que as pessoas fazem isso para principalmente contar pro outro, mostrar pro outro, causar, inveja, admiração, qualquer tipo de reação que remeta a você. Como se o outro fosse uma espécie de espelho.
Nessa necessidade de “parecer” para que então você consiga, através do que os outros pensam de você, se enxergar, a aparência é o que mais conta.
Uma vida voltada para o consumo, se pensarmos bem, é uma boa alternativa de vida para que possamos “parecer” sempre. Um amigo vendia calças Diesel sem a etiqueta em um bazar antes de ir para as lojas. Ouvi gente dizendo que então sem a etiqueta não queria. Também já vi gente, pagando 900% em cima do preço de custo de uma saia da Les Lis Blanc, mesmo sabendo que a mesma saia podia ser comprada na Rua Zé Paulino, no centro da cidade. Já vi gente passando por dificuldades financeiras deixando de pagar contas de telefone e luz para poder juntar dinheiro e comprar um carro caro e, assim, ser bem atendido quando vai a restaurantes chiques. Será mesmo que tudo isso recheia o interior de cada uma dessas pessoas? Talvez infle, não necessariamente recheie. Nenhuma mulher que eu conheço acha 38 centímetros de bíceps bonito, porém muitos homens precisam disso. E eu sei que existem muitas outras calças jeans, além da Diesel, quem “vestem bem”. Nossa vida virou consumo. De carros, bolsas, relógios, tênis… corpos.
E já que é a aparência que importa, além do parecer, o fazer é muito mais valorizado do que o sentir, o pensar. O importante é ser bem-sucedido, bonito, vestir-se bem, ser jovem, ativo, esportista. Mesmo porque se as qualidades valorizadas passassem a ser a sapiência, a cultura, a inteligência, a integridade, a bondade, a amizade, as pessoas teriam que “gastar” muito do seu precioso tempo, descobrindo-as nos outros. Não. Numa sociedade em que o fast, o instantâneo é o que contam, não há espaço para esses tipos de pessoa.
Nunca houve tantos registros de casamento na Igreja como hoje em dia. E nunca houve tantas separações também. Como tudo aqui é efêmero, começa a surgir uma sensação de insegurança em cada um. O casamento parece que vem como uma tentativa de se estabelecer, de construir vínculos para que exista algum porto seguro, já que quase nem a família faz mais esse papel. Mas falta o costume, e, portanto a paciência para passar por certos obstáculos. Assim casamentos vêm e vão, na esperança de encontrar aquele ideal “feliz para sempre” como o dos nossos avós. Infelizmente esse ideal nunca sairá do papel porque ninguém tem tempo nem persistência para construir mais nada.
Certa vez namorei um menino de uma cidade do sul, que inclusive era pescador. “Pescador??”. É, pode se livrar desse preconceito. Ele não era nenhum ogro, pelo contrário, muito educado e culto. Enfim… Um dia fomos ao mercado e, ao invés de eu comprar alguns limões pra fazer um suco, comprei um saquinho de Clight. Ele ficou inconformado com aquilo. Para ele não fazia o menor sentido levar um pozinho artificial ruim, uma vez que eu preferia suco natural, estava de férias e tinha tempo de sobra para espremer os limões. Então ele começou a me chamar de americaninha. Levei o Clight, mas fiquei com aquilo na cabeça. Ele tinha toda razão. A nossa sociedade americanizada da cultura “fast” faz com que não tenhamos paciência pra lermos um livro, não nos permitimos parar um pouco, devanear. Não agüentamos esperar, não agüentamos frustração. O gozo tem que ser imediato. E esse hedonismo também impede que nos sintamos culpados, permite que não nos preocupemos com o outro. Faz com que passemos reto por alguém que esteja precisando de ajuda sem nos abalar, porque estamos com “pressa”. Acontece que essa conduta vai formando um rombo dentro de cada um de nós. Você não sabe, ou esqueceu, mas o outro importa sim porque todos nós estamos no mesmo barco existencial. E parar pra pensar é essencial sim, senão uma hora você se perde.
É por esse processo que muitos de nós começa a se distanciar de nós mesmos. As introspecções vão ficando cada vez mais raras, até que surge um vazio inerente ao humano. Porém, o que não vem junto com isso, são as ferramentas para lidar com essa sensação. Elas são fabricadas por nós mesmos, e demoram a ficar prontas. Aliás, não ficam prontas nunca, estão sempre sendo multiplicadas e aperfeiçoadas. Quanto mais vivemos, com v maiúsculo, os mais diversos tipos de ferramentas vão sendo inventadas. E quanto mais demorarmos pra começar a fabricá-las, mais elas vão demorar a ficar úteis.
Assim, a bola de neve só aumenta: a partir do momento em que parecer estar sempre bem é essencial, como podemos, por exemplo, admitir que estejamos sofrendo por amor? Se desarmar desse jeito é admitir que você precise do outro, exige coragem. É tirar a nossa máscara narcísica de ser perfeito e auto-suficiente. É ter que admitir que eu não me baste. Tem que ser muito macho. O mais fácil mesmo é não se apegar pra não correr esse risco, não é? Ficar só no consumo de corpos. Pegar seis na balada…
Se todos soubessem que o amor não nasce da perfeição, nasce do que temos de mais humano, nasce da tolerância e aceitação de tudo aquilo que não é perfeito. Nasce pelo contrário da aceitação do lado “bundão” de cada um. Talvez se apegar, e ter uma troca de afeto não seria tão difícil. Amar afeta nosso narcisismo. É a prova viva de que você não é o rei da cocada, que você não se basta, que você não é o bonzão.
Hoje em dia é assim: você chega e pergunta pra alguém, “oi como vai?”, poucas pessoas vão te responder que “putz, tô mal, passando por uma fase meio chata…”. Não. Está todo mundo “ótimo”, sempre. É claro entender o porquê desse hábito: poucas pessoas estão dispostas a ouvir outro tipo de resposta a não ser esta. O curioso é que as chamadas síndromes do pânico e as famosas depressões, só aumentam. Bom o pânico é denominado pelos psicólogos; neurose de angústia, e a depressão; vazio existencial, e mesmo assim está todo mundo “ótimo”? Deve ter alguma coisa errada em algum lugar… Não é a toa que os remédios psiquiátricos estão entre os quatro negócios (legais) mais lucrativos do mundo…
Acho que ficaria todo mundo aliviado se nos conformássemos que não existe saúde, felicidade e paz cem por cento do tempo. Ter saúde não é ausência de problemas, deficiências, conflitos, é saber falar sobre eles e é saber “conversar” com eles.
Esse desamparo da solidão, causada pela perda do coletivo, agravado pela falta de aparato psíquico porque não paramos para elaborar nenhuma frustração, faz com que não saibamos como lidar com a sensação de incomplitude, inerente ao ser humano. Nada favorece o alívio do desamparo, porque não há solidariedade, não há vínculos, não há paciência. Nesse contexto as pessoas começam a descobrir jeitos fáceis e porque não dizer solitários e instantâneos para aliviar essa angústia: fumar um beckzinho, tomar doce na rave todo final de semana, ou apenas enfiar a mão no bolso e tomar um Prozac, companheiro de todos os dias.
Sabe? Hoje eu falaria muito menos em usuários de drogas e muito mais em drogaditos, no sentido pejorativo da palavra mesmo. Porque antigamente as drogas eram usadas para ampliar, expandir a consciência. Hoje é pra anestesiar. Vejo como uma espécie de covardia. Nunca entendi porque me incomodava tanto que alguns amigos meus fumassem maconha e afins, e outros eu nem ligava. Sábio inconsciente…
E o que tem de gente indecisa, que não consegue fazer escolhas? Meu pai que diz que eu tenho que chegar meia hora antes que todo mundo no restaurante pra dar tempo de escolher meu prato. Escolher é difícil. A escolha é invariavelmente uma perda, só que perda é palavra proibida num mundo em que a religião é ter tudo. Então escolher nem sempre é ganhar, certo? Errado. Quando perdemos, ganhamos consistência simbólica. Obriga-nos a ter que lidar com a falta, nos obriga a ter que lidar com as coisas da vida. Quanto mais repertório, menos ansiolítico.
Não me excluo dessa cultura. Quem me conhece sabe. Também não peço pra você não comprar um sapato Prada, nem para você não ter um corpo bonito. Só peço que você saiba o porquê de todos esses quereres, ou melhor, de todas essas necessidades. Peço que você se esforce para ter paciência para ler textos grandes como esse, para escutar, para tentar entender. Para quê eu te peço tudo isso? Para que os seus filhos possam sentar no colo de alguém que lhes conte uma longa história, para que nossos netos tenham a chance de experimentar um almoço maravilhoso cozinhado com carinho por alguém que preparou a comida desde cedo. Para que haja mais paciência para ouvir, e reflexão para tolerar. Para sabermos por que somos do jeito que somos, por que a gente gosta do que gosta. Para quando, com a idade, os cabelos caírem, o rosto encher de rugas, se não houver mais dinheiro para calças Diesel e uns quilos vierem com a menopausa, as pessoas continuarem sendo felizes e fazendo os outros felizes com tudo que guardam dentro delas, não fora.
Todo mundo que me conhece me zoa porque eu penso demais, tenho uma cabecinha confusa, estou sempre em “crise”. Não nego. Sou confusa mesmo, me angustio mesmo. Mas, de verdade, eu prefiro aprender a lidar com o nosso mal-estar desde já. Estou aprendendo a aliviar minhas dúvidas e questões com o meu próprio aparato psíquico, e vou te contar… Quanto mais eu entendo tudo, mais feliz eu sou, mais leve fica minha vida. “Fácil” assim.
Tomara sinceramente que se tirarem sua bebida, maconha, ou Prozac, você dê conta.

Por um mundo melhor,
Marta Murat.

Sobre a maldita mania de viver no outono…

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do
talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me
incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo
que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda
joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu
está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos
dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias
que nunca sairão do papel por essa maldita mania de
viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a
escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto,
contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na
distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos
abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que
sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser
feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo
trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir
entre a alegria e a dor, sentir o nada , mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não
teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em
tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não
aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um
traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que
todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que
não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,
preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é
desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros
amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um
coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é
instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a
saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça
de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais
horas realizando que sonhando, fazendo que planejando,
vivendo que esperando porque, embora quem quase morre
esteja vivo, quem quase vive já morreu.

(Luiz Fernando Veríssimo)


 

janeiro 2012
S T Q Q S S D
« dez    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

a


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.