O não-estar na descivilização brasileira

A crise é boa para a sociedade civil, já que ninguém sabe onde está a sociedade civil. Onde está a sociedade civil? Vendo a Globo? No shopping center? Na Europa? A crise é boa para achar a sociedade civil. (JABOR)

A crise é sempre culpa do outro. (JABOR)

Referido sempre a seu próprio umbigo e sem poder enxergar um palmo além de seu próprio nariz, o sujeito da cultura do espetáculo encara o outro apenas como objeto de seu usufruto. Seria apenas no horizonte macabro de um corpo a ser infinitamente manipulado para o gozo que o outro se apresenta para o sujeito no horizonte da atualidade. (BIRMAN, 2000. p25)

A crise é de identidade. Os políticos que nunca governaram estão em crise de identidade, como as debutantes. (JABOR)

Não obstante, o mal-estar da brasilidade hoje não se materializa mais em torno da culpa, como afeto primordial, mas se configura decididamente no registro da vergonha. Infelizmente, aliás. Com efeito, a presença da culpa nos remete ainda como sujeito à crença na existência da figura do pai e ao reconhecimento da transcendência de uma lei simbólica, que possa com justiça possibilitar a distribuição do gozo. Porém, quando não se pode mais acreditar nisso, o que importa para a subjetividade é salvar a própria pele, isto é, garantir algum gozo próprio para si e ligar o “dane-se” geral para o gozo dos outros. (BIRMAN, 2003. P76).

O não-estar na Descivilização Brasileira

Civilizar, de acordo com a antropologia psicanalítica de Freud, é reprimir ou suprimir alguns de seus desejos, para que possa haver convivência. Esse processo implica necessariamente em uma renúncia pulsional, tanto erótica quanto agressiva. Fica claro no livro “mal-estar na civilização” que, por esse motivo, é inevitável para cada indivíduo não guardar certo rancor contra a cultura.
Porém, após a morte de Freud a sociedade se configurou de uma maneira que faz com que a intensidade da repressão exista não apenas pelas exigências que o processo civilizatório faz, mas também pela injustiça social, em virtude da exploração do homem pelo homem, pela força que é preciso para garantir a manutenção da sociedade capitalista.
Ao falarmos do Édipo, que é a pedra angular da estrutura psíquica e do processo civilizatório, falamos da criança que tem que renunciar às pulsões incestuosas e parricidas. Falamos da criança que tem que renunciar, portanto, à onipotência do seu desejo e ao princípio do prazer, adequando-se aos princípios de realidade em nome de tudo que receberá em troca que lhe permita desenvolver-se e sobreviver (nome, filiação, lugar na estrutura do parentesco, acesso à ordem do simbólico…). Como diz Hélio Pelegrino em seu texto “Pacto Edípico e Pacto Social” é um “toma lá dá cá”.
No Pacto Social, através do trabalho, pede-se ao ser humano que confirme a sua renúncia pessoal primitiva. Trabalhar é disciplinar-se, é abrir mão da onipotência e arrogância primitiva. O trabalho é o elemento mediador fundamental, por cujo intermédio, como adultos, nos inserimos no intercâmbio social e nos tornamos, de fato e de direito, sócios plenos da sociedade humana. A recompensa que o sujeito terá por esse doloroso acordo compete à sociedade.
Se o pacto social não for posto em prática, se os direitos de quem trabalha são desrespeitados, já não há mais motivos para que a sociedade seja respeitada e preservada pelo indivíduo.
A ruptura com o pacto social pode implicar com a ruptura com o pacto Edípico. Tudo aquilo que ficou reprimido em nome do pacto com o “pai” pode vir a tona sob forma de conduta delinqüente anti-social. E é isso que vêm dilacerando o tecido-social brasileiro: assaltos, roubos, assassinatos, estupros.
O texto de Hélio Pelegrino me levou a pensar que estamos vivendo um processo de “Descivilização” no Brasil, onde não há mais nenhum bom motivo que nos leva a querer cumprir as regras sociais. O mal-estar ainda existe, mas agora a causa é uma não-responsabilidade para com o outro. Penso que mais do que falar em um mal-estar, poderíamos falar sobre um não-estar.
Num quadro de conformismo em que eu não sou culpado por nada, que nada do que eu fizer vai adiantar. Num quadro de “salve-se quem puder”, “cada um por si e Deus por todos”, há simplesmente um não-estar. Não há sociedade. Não há “toma lá, dá cá”. O mal-estar vem agora pelo desamparo.
Sem entrar no mérito do por que, ou de quando se deu o start desse caos brasileiro, o que se vê é justamente os líderes econômicos e políticos da nação que, de tanto olhar para seu próprio umbigo, de tanto se preocupar narcisicamente apenas com o seu próprio gozo, de tanto se dar ao direito de não renunciar à onipotência do seu desejo; roubando, mentindo, não se responsabilizando pelo Outro, fez com que a massa seguisse seu exemplo. Há uma renúncia do pacto social. Afinal, não existe acordo de mão única. Não há vantagens em dar, se não recebo nada em troca.
Críticos criticam a crise. Inundam o leitor de questões. Onde a sociedade civil está? Eu digo onde: está criticando, está lendo, está escrevendo, está se escravizando, está tentando arranjar um por que de viver nesse caos, mas nem ela sabe quem é ela, nem ela sabe que ela é ela. E se souber, não tem a mínima idéia do que fazer com isso.
As perguntas aumentam, e de modo inversamente proporcional as soluções aparecem. A situação é grave.

“A crise estimula a inteligência.” (JABOR).

Marta Murat

1 Resposta para “O não-estar na descivilização brasileira”


  1. 1 dudufigueiredo 21 Junho, 2007 às 11:00 pm

    Se estamos vivendo um processo de “Descivilização”, quando fomos civilizados?


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