Não sei se posso dizer que eu escolhi viver tudo que eu vivi até agora. Na verdade eu sinto que falaram: “É assim, ó! Vive aí!” e eu segui. Tudo que diziam que era certo eu fazia, tudo que diziam que era errado eu evitava. Até agora.
Não é que agora eu sou uma revolucionária revoltada. Não. Mas olhando pro mundo com cuidado o que eu mais vejo é: guerra, egoísmo, solidão, tristeza. Será mesmo que os conselhos e orientações que meu tataravô passou pra minha bisa, que passou para o meu avô que passou para a minha mãe são os mais adequados para mim? Será que eles foram felizes? Ninguém nunca me falou nada a respeito, e pelo que eu vi até agora… Não sei não…
A nossa sociedade, na sua evolução, foi traçando rotas que a priori devem ser seguidas. O que eu sinto é uma pressão do tipo: “Ai de você se não seguir!”. Se você não for pra escola, se não entrar em uma boa universidade, se não tiver o mínimo de dinheiro, freqüentar certos lugares, constituir uma família feliz, no mínimo você é meio louco, pirado, alternativo. Enfim, está fora do padrão. O problema é o que eu também vejo alguns outros padrões hoje em dia: câncer, stress, infarto, depressão, pânico, gastrite. Pensar por aí me faz começar a tentar olhar o que todo mundo acha certo de uma outra maneira… Da minha maneira.
Quem disse tudo isso que a maioria das pessoas acredita piamente ser verdade? Quem? A sociedade da depressão? Essa que perdeu o senso de coletividade, que destrói a natureza e que está se afundando em guerras? Ah…
O certo aqui é ser monogâmico. Alguém já parou pra pensar que isso só passou a existir quando surgiu o conceito de propriedade privada? Os homens tinham que ter certeza de que aqueles que herdariam as suas terras eram seus legítimos filhos. Conseqüentemente, como garantia, a esposa deveria ser só sua.
Há uns dois anos atrás, quando eu ainda namorava, uma situação que eu vivi me fez decidir que quando eu casasse teria um quarto só pra mim. Levei essa idéia para um almoço de família. Das oito pessoas presentes, apenas a minha madrasta quis ouvir o porquê antes de se revoltar.
Eu expliquei que muitos casamentos não davam certo por inúmeros motivos. Um motivo que eu conseguia identificar como destruidor de uma relação na qual eu me encontrava, era a falta de privacidade. Como, para mim, casamento é uma proposta de uma vida inteira, pretendia encontrar modos de aperfeiçoá-lo ao máximo para que realmente durasse uma vida inteira.
Então, como acontece hoje em dia, e vai continuar acontecendo desde o dia que eu casar até o fim da minha vida, provavelmente terei alguns dias em que eu estarei de saco cheio e vou querer chegar em casa e ficar sozinha no meu quarto, sem encher ninguém com o meu mau-humor. Assim evito brigar com quem quer que seja, evito querer sair do quarto pra ficar sozinha e causar, sem querer, uma crise no meu marido, que vai querer saber se o problema é com ele, e não vai acreditar se eu disser não. Além disso, as noites que eu passar no quarto do meu marido ou vice-versa, serão provavelmente muito mais especiais do que se dormíssemos todos os dias juntos.
Eu acho a minha idéia fantástica! Para mim. Bom, as pessoas lá de casa não acharam. Aliás, pelo contrário! Todo mundo se revoltou: meu namorado falou que então nunca iria casar comigo, meu cunhado falou que a proposta do casamento é aprender a conviver com o outro em todas essas situações. Mas aí que eu me pergunto: proposta de quem?
Por que tem que ter regra pra todas as coisas da vida? Regra é essencial pra vivermos em comunidade. Mas tem limite. Senão vira todo mundo gado. Gado que é assim: toma um rumo porque todo mundo tomou, segue o resto pro bebedouro às cinco da tarde mesmo sem estar com sede. Só que boi não sente, não pensa, não tem crise existencial!
Quem disse que casamento é assim e pronto? Por que tem que ser assim? A vida é minha. Cada um deveria descobrir o seu jeito de viver. E é só assim que vai funcionar! Senão, haja Gardenal! (sem querer ser repetitiva).
Os dogmas sociais são complicados. É difícil tentar olhar de fora e distinguir em quais você se encaixa por que faz sentido pra você, e em quais “te encaixaram”. Detectar isso é um jeito de cada um de nós conseguirmos pôr em prática aquele lema tão conhecido, tão pronunciado que chega até a estar meio banalizado atualmente: o “Carpe Diem”.
Outro dia fomos a uma pizzaria. Quando abrimos o cardápio percebemos que a pizza era extremamente cara. Então eu disse: “Vamos perguntar ao garçom aonde tem uma pizzaria mais barata?”. A mesa inteira me reprimiu: “Você viaja, né Má?”. Levantaram da mesa e foram indo embora. Fiquei por último parada, perplexa. O garçom, moreno, com uma cara de simpático ficou me olhando. Senti que tudo bem perguntar: “Moço, você sabe aonde tem uma pizzaria mais barata?”. Ele me explicou. Pronto. Se ele tivesse na minha situação, ele ia gostar que alguém o ajudasse. Ele é humano. Acho que seria mais gostoso de viver num mundo com menos regras de conduta e mais sensilibilidade. Acho importante lembrar que os padrões que a mamãe te ensinou para se comportar enquanto você é pequeno, podem e devem ser revistos quando você cresce e toma consciência deles.
Outro exemplo: sempre fui cética. Sempre tive orgulho de ser cética, racional. Foi o que me ensinaram a vida inteira. Durante um bom tempo cheguei a pensar que nada mais éramos do que uma colônia de vários bichinhos autônomos chamados células. E quando dava alguma encrenca na colônia, ou a gente ficava doente, ou morria. Dependia da encrenca. É claro que eu pensava assim. Vivo numa sociedade que enfia na cabeça de (quase) todo mundo a lei que diz que só merece crédito aquilo que pode ser comprovado pela racionalidade, pela ciência.
Ah é? Agora alguém aqui pode me dizer se alguém já materializou o amor em laboratório? Se já inventaram uma máquina de quantificar o amor? Não? Ah… Mas quem tem coragem de dizer que o amor não existe?
Será que Aristóteles era feliz? E se ele não tivesse convencido o mundo ocidental inteiro de que a razão é melhor do que a emoção? Depois ainda veio o Iluminismo para legitimar ainda mais essa idéia. O ser humano raciocina (ou a maioria deles), claro. Do mesmo jeito que tem sensações, sentimentos e intuições. Enterrar tudo isso e deixar só a razão falar é bom? Quem disse que o raciocínio deve se priorizado se comparado à intuição, por exemplo? Aristóteles? E se eu disser que não é? Quem é mais feliz? Uma pessoa que se poda, pensa dez vezes antes de fazer, ou uma pessoa impulsiva, que sente que deve e faz? Não sei. Não sei disso tanto quanto eu sei que supervalorizar uma característica humana não anda fazendo bem.
Ando meio assustada com a mudança de valores que tem ocorrido ultimamente. Não sei se é um fenômeno do mundo, mas tenho certeza que brasileiro é. Não precisa ir tão longe, ou melhor, até Brasília pra começar a discutir as coisas erradas do Brasil. Outro dia fiquei sabendo que uma menina, amiga do meu primo, de catorze anos, “deu” (me desculpem o termo, mas não consegui pensar em nenhum melhor) no meio de uma balada de Campos do Jordão. Catorze anos. Tenho conversado com bastante gente e ouvido muito que as crianças andam impossíveis nas escolas, cada vez mais baderna, menos respeito… Só falta porem fogo na escola.
Ao invés de ficar criticando, resolvi analisar os fatos: nos últimos 30 anos tivemos a maior revolução sócio – tecno – científica da história da humanidade. Mesmo assim o ensino continua acontecendo da mesma forma que há um século atrás. Talvez pensando por esse lado não estranhássemos o fato de muitos pais e professores estarem perdendo o controle sobre as crianças. Quantos e quantos livros dando dicas de como educar estão sendo escritos. Nunca houve tanta necessidade de auxílio de especialistas na educação de jovens. Como educar?
O meu ponto é: como saber que padrões tradicionais são importantes serem mantidos e quais precisam urgentemente ser revistos?
O que é certo? O que faz bem? Quem disse?
Sei lá…
Marta Murat
Lendo o texto me lembrei daquela historia de pai e filho na qual o pai, preocupado por ver seu filho cabisbaixo, perguntou “Tudo bem filho? Aconteceu alguma coisa na escola?”/”Ahã, vou ter que fazer esse lição de novo se não vou ficar com nota vermelha.” O pai então olhou e percebeu que o problema era que o filho havia pintado todos os desenhos e figuras além das suas linhas limítrofes, e pensou “E depois a gente ainda vai ter que gastar um dinheirão, pra fazer com que nossos filhos estudem em boas faculdades e realizem cursos de MBA no exterior, tudo isso pra que eles reaprendam a pintar fora do quadrado.” Acho esse diálogo muito simbólico. Mas acho que, apesar de ele mostrar as malfeitorias do sistema de ensino tradicional, também mostra que os questionamentos e as mudanças já estão sendo valorizados. Gosto de acreditar que estamos numa fase de transição em que questões como as levantadas no seu texto serão abordadas de forma crescente e novas opções também aparecerão. Só não consigo acreditar, infelizmente, que isso ocorrerá rapidamente.
Fazendo um link com seu outro texto, digo que as pessoas seguem os tais padrões(olha eles de novo ai!!! como eu odeio ter que seguir vários deles) pela simples explicação de que é mais fácil, mais seguro. É difícil fazer a tal crítica construtiva. Toma tempo. E na sociedade fast-food, como sabemos, isso é pecado. “Siga essas diretrizes que você vai ter uma vida boa, nunca vai te faltar nada.Você vai viver com conforto.” diriam os habituais participantes dos almoços e jantares que estamos acostumados a frequentar. Mas e se a vida boa não for suficiente? E se eu quiser uma vida fantástica, memorável? “É, aí é arriscado, você sabe né?”. É, eu sei, ô se eu sei, todo mundo faz questão de lembrar toda a hora. E aí as regras vão seguindo, imutáveis, com os mil defeitos dos quais todos reclamam mas não se preocupam em tentar mudar. Faltam os culhões. Pra todo mundo, e pra mim também. Mas eu to trabalhando, logo eu os terei.